Hermes, o deus dos meandros do pensamento

Hermes é, ao mesmo tempo, o deus do hermetismo
e da hermenêutica, do mistério e da arte de decifrá-lo.

(CHEVALIER&GHEERBRANT)

      Um paradigma fundado sob o mito de Hermes busca uma orientação, um sentido, um caminho a ser percorrido através da poética, da magia renascentista, da tradição, do politeísmo, e das questões que estão nas profundezas de nossa alma individual e coletiva. Fala sobre a racionalidade de um saber engendrado pelas nossas sombras. Mais do que as questões acessadas pela leitura direta do nosso intelecto, esse paradigma requer uma pesquisa indireta que busca construir elos entre os fenômenos, de modo a compreendê-los como estando co-implicados. Neste mesmo movimento, sempre provisório, de co-implicação entre homem e cosmos, como nos ensina a tradição hermética presente na cultura alemã: “(...) a natureza nós explicamos, a vida da alma nós compreendemos”. (DURAND, 2007, p.221).

      Na verdade, quando Gilbert Durand trouxe à reflexão da Antropologia do Imaginário a tradição hermética, ele destacava que os outros paradigmas das ciências sociais sofriam de um paradoxo, que era o medo do sentido. O medo do sentido é o divisor de águas entre o saber ocidental e o saber da tradição. Segundo esse autor, é no mundo da tradição que temos a inscrição simbólica dos cinco movimentos do hermetismo negados pelo modelo ocidental do pensamento. Ao recuperar este significativo legado simbólico, ele se propõe a ser um Hermes, um mediador entre esses dois mundos, o mundo da ciência acadêmica e o mundo dos saberes gerados fora da academia. E ele vai dizer que somente exercendo um papel de mediação é possível à ciência contemporânea compreender a natureza da realidade imaginal nos meandros das várias conexões construídas pelo pensamento. Por meio da ativação da função mediadora da alma humana alimentada fortemente pela intuição (uma intuição visionária, que opera pela similitude, pelo re-conhecimento), seria possível compreender e atuar sobre os paradoxos instaurados entre o mundo sensível e o mundo inteligível:

"porque talvez também as epistemologias sejam o lugar de um eterno retorno [grifos meus] e a aceitação dessa ocorrência seja o passo decisivo a partir do qual uma Ciência do Homem poderá se estabelecer." (DURAND, 2007, p.165).

      Dessa forma, esse antropólogo-hermeneuta recorreu à busca do sentido para a criação de uma ciência gnóstica fundada sobre o abarcamento dos mais de sete séculos de ocultação das epistemologias construídas sob os modelos da similitude. Ele está trazendo de volta à discussão o arquétipo do Hermes-Mercúrio, deus grego e romano, filho de Zeus com Maia, irmão de Apolo e pai de Pã como uma figura mítica que habita o inconsciente coletivo. Hermes era deus hábil e veloz, reconhecido pela sua eloquência e persuasão; ganhou de seu pai as sandálias douradas que lhe possibilitavam desafiar o tempo, atravessando-o. Assim, ele rastreava o mundo dos homens e com sua agilidade levava informações deste mundo ao mundo dos deuses. É atribuída a ele a criação do fogo, a invenção da astronomia, da escala musical, da previsão do futuro, esta por meio de um delicado jogo com ossos metacárpicos e seixos.

      Nesta condição de atravessar terras e mundos, ele foi se engendrando como um deus que portava ambigüidades: de situar-se entre o bem e o mal, de ser o deus das trevas e o deus das luzes, e como deus dos cultos pré-helênicos, tornou-se, talvez, o deus mais reverenciado e, ao mesmo tempo, temido do Olimpo. Do Mercúrio, a literatura traz a informação que é um deus que atua intensamente como mote da transformação, semelhante à que se realiza no processo alquímico (solve et coagula): “[o mercúrio – parênteses meus] (...) [é] 'prima matéria'; uma arché cósmica (principium), mãe de todos os outros elementos” (JUNG, 1997, p. 345). Como Hermes-Mercúrio, o arquétipo faz nascer a “terra mística”, processo permeado por essas ambigüidades, ambivalências, duplicidades e paradoxos – as mesmas condições que estão encrustradas nas profundezas da alma humana e alimentam a condição do homem que é um ser mortal.

      Esse deus criativo inventou a lira utilizando uma carapaça de tartaruga, fez as cordas com as tripas de um boi, e confeccionou também a flauta. Produzia sons esplendorosos através desses instrumentos musicais. Hábil na arte da negociação, Hermes fez uma troca com Apolo: deu-lhe a lira, mas exigiu dele o ensinamento da arte mágica da adivinhação. Como mensageiro entre os deuses do Inferno, Hades e Perséfone, Hermes foi um condutor das almas ao mundo dos mortos.

      Fundado sob o mito de Hermes – que é muito anterior ao mito judaico-cristão que embasou o modelo ocidental do pensamento - o paradigma do imaginário realiza uma leitura hermenêutica da filosofia para construir uma história imaginal da produção dos filósofos e dos excluídos de tal modelo. Do âmago desta história imaginal (anti-história da anti-filosofia) essa hermenêutica compreende o mito do Prometeu que está na base da sequência cronológica da história como o ponto de chegada do modelo ocidental, emerge como um conhecimento outro, uma nova concepção de história, a que promove o co-conhecimento: o re-conhecimento (causalidade a posteriori) no interior de temas e de problemas culturais (categorias simbólicas) que operam, simultaneamente, uma transformação na consciência e uma realização do anthropos:

"[o paradigma do imaginário consiste em – parêntesis meus] restaurar o panteão plural da psique (pluralismo da coincidentia oppositorum - palavras do autor). Não é o pênis ou a vagina(...) que precisam ser tirados das rejeições inconscientes do sonho, da neurose ou do delírio! Mas sim a epístrofe (destaque do autor) vingativa de Dionísio, de Príapo, de Afrodite, de Juno ou e Diana. A sede dos deuses exige esta ‘objetivação’ mitológica sob pena de Alienação mental. A individuação é a ponte de chegada trabalhosa desta incerta Odisséia. " (DURAND, 2007, p.265-266).

      O paradigma de Hermes atuou em todos os movimentos hermetistas da Antiguidade egípcia e helênica até os do século XX. A ressonância produzida por esses movimentos aos poucos está alcançando o saber acadêmico que se disponha a fazer uma leitura crítica dos mitos que estão presentes no Positivismo, no Historicismo e no Pensamento Eclesial. Esse conhecimento já está à disposição dos intelectuais.

      Neste horizonte de pensamento, essa ciência hermenêutica desenvolveu uma noção de causalidade axial (o homem como o eixo em torno do qual o mundo pode ser pensado, homem e mundo partilham de uma mesma substância e essência); e para que essa compreensão fosse possível, essa hermenêutica criou métodos racionais que a possibilitassem desentranhar sentidos, fazer mediações, construir pontes, estabelecer pactos, ser provisória, e que retornassem sempre com novas indagações:

"(...) o sistema estabelecido de signo patriarcal-racionalista dissocia 'corpo' e 'espírito', 'alma' e 'espírito', matéria e forma, diabo e deus, regressão e progressão, incosciente e consciência, masculino e feminino".(ORTIZ-OSÉS, 1987, p.162-3).

      O eixo do paradigma hermesiano se estruturou sob a noção de similitude existente nas relações entre homens, seres, coisas e cosmos: o microcosmo é, assim compreendido como uma expressão do macrocosmo. Dessa forma, o macrocosmo se torna intencional ao microcosmo, isto é, o macrocosmo responde às indagações do homem, desde que visceralmente ele saiba ler os seus sinais, decifrar seus enigmas. Os sentidos não lhe são dados a priori, nem de imediato, o homem é re-conduzido a eles por meio de árduos caminhos, linhas cruzadas, embrólios, armadilhas, como num processo iniciático, lugar cósmico (cf. Durand, op.cit.), do qual são colocadas as provas que ele necessita para transcender.

      O paradigma hermesiano da Antropologia do Imaginário porta um projeto de reencantamento do mundo, por meio da re-condução dos nossos sentidos aos mitos que nos possibilitam um retorno à fonte, ao nosso eixo, àquele centro ubíquo, o centro do labirinto onde habita a ordem secreta das coisas. Neste centro encontramos os arquétipos, que são predisposições atuantes do inconsciente coletivo, e se apresentam a nós através de situações, cenários e processos fortemente imbricados em relações cotidianas, cujos dilemas somos desafiados a decifrar. Por não ser linear o processo de realização do anthropos, tal processo exige a compreensão dos mais intrincados ardis e o diálogo com a imagem de Hermes (símbolo + energia) possibilitaria re-conhecer nele: “o encaixe na roda do eixo” (DURAND, 2007, p.191), imagem inspirada na “carruagem alada descrita em Fedra por Platão” (DURAND, 2007, p.91).

      Se o mito judaico-cristão está fundado no arquétipo de Cristo, o mito de Hermes está fundado no arquétipo do Anti-Cristo. Isto significa duas direções diferentes, dois conflitos que engendraram o desenvolvimento dessas cosmologias.

J. P. Vernant, referindo-se a Hermes, afirma:

"nada nele é fixo, estável, permanente, circunscrito, nem fechado. Ele representa no espaço e no mundo humano, o movimento, a passagem, a mudança de estado, as transições, os contatos entre elementos estranhos”. (VERNANT, Apud DURAND, p.2007, p.171).

      Hermes nos guia por meio de quatro orientações: como sábio, químico, médico e astrólogo. Juntas, elas fornecem o cimento para dar coesão ao princípio da similitude, ajudando-nos a compreender o locus de onde provêm as doenças e as curas, acessadas por meio do símbolo como uma gnose:

"a gnose é o instante e o lugar onde o olho, a visão e a intenção fazem apenas um único movimento. Ela é evidentemente compreensão como toda tradição antropológica germânica (....). A similitude não é nem a busca de uma causa nem o estabelecimento de um fato: é o re-conhecimento(...). DURAND, 2007, p.193-194).

      Finalizando, Gilbert Durand nos explica que um paradigma fundado na hermenêutica hermesiana necessariamente é qualitativo. Ele enfatiza que o modelo paracelsiano pode estar presente em várias hermenêuticas e se destaca pelos quatro princípios que operam, simultaneamente, no eixo de uma outra forma de razão (a ratio hermetica), de modo oposto à lógica linear, única e causal:

"o princípio da similitude que anima todo o hermetismo paracelsiano, exprime uma oposição que podemos formular em quatro postulados: não-metricidade, não-causalismo objetivo, não-agnosticismo, e, finalmente, não-dualismo." (DURAND, 2007, p.188).

      Um modelo de pensamento, de compreensão do mundo e de si, simultaneamente, é hermenêutico, quando ele contém a potencialidade de
"penetra[r] até o fundo das consciências, conforme seu grau de abertura. (CHEVALIER & GHEERBRANT, 2000: p.488).

Referências Bibliográficas:

CHEVALIER, J & GHEERBRANT, A. Dicionário de Símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. São Paulo: José Olympio, 2000, 15ª ed.

DURAND, G. Ciência do Homem e Tradição: o novo espírito antropológico. São Paulo:Triom, 2007.

ORTIZ-OSÉS, A. Mitologia Cultural y Memórias Antropológicas. Barcelona: Anthropos, 1987.

JUNG, C.G. Mysterium Conniunctionis. Vol.XIV-3. Petrópolis: Vozes, 1997.

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